sexta-feira, 15 de maio de 2015

EU, MINHA MÃE E O NOME DA ESCOLA

         






              Era pequenina, não sabia escrever muito bem, mas da porta do meu quarto, eu fazia o quadro mágico e tentava rabiscar. Lembro-me, precisamente, do momento em que eu me empenhei para aprender o nome de minha escola. Era um grande desafio.

           Lá, eu estava, oito anos de idade e um pedacinho de giz na mão que eu pedia para a professora me dar ao cabo da aula. Bem ali, eu permanecia  em frente ao grande quadro negro do meu quarto que por mais que fosse apenas uma porta, era também o momento do desafio gigante. 

            Depois do sono vespertino, minha mãe lavava roupa e eu decidi dividir minha façanha em duas partes: a primeira deveria escrever o nome da escola olhando pelo do meu caderno; e a segunda, seria escrever SOZINHA. 

            Comecei. Peguei o giz e um olho no caderno e outro no quadro, um olho no quadro e outro no caderno. Era uma emoção tão grande(risos)!  Até que o grande momento chegou.Terminei. Estava muito feliz, afinal de contas o nome de minha escola era muuuuuiiiito grande, meu braço estava cansado e eu não sabia pegar no giz direito. Eu era uma criança sonhadora semelhante a tantas outras. 


          Chegado esse momento, então, eu tive que seguir para a outra etapa e , esta, meu Deus! Esta outra seria assustadora, contudo, ser criança é também encarar grandes desafios ou vocês acham que subir escada, ou escalar árvores, ou pular muros, é coisa para fracos? Não, isso é coisa para CRIANÇA!

            
     Pois bem, decidi , dessa vez, escrever sem olhar: noooossssaaaaa, como foi difícil! Mas era meu desafio e decidi ir até o fim! Escrevi toooooddddooo o nome da escola. Gente, o nome inteiro. Isso mesmo. Não me contive de tanta felicidade!!! Era felicidade demais, eu estava entusiasmada, a sensação de felicidade era maior do que apertar a campainha do vizinho e sair correndo rsrsr!  

         Corri até a lavandeira e chamei minha mãe para vê o que eu havia feito.

 _Mamãe, eu escrevi o nome inteiro da escola! O nome da escola, eu escrevi, mamãe!!!
Minha Mãe ficou super contente, muito feliz, assim como eu. Ela disse: Muito bem....continue assim.

Eu, em minha inocência pueril, ainda não sabia que minha mãe não entendia uma letra sequer. Eu não sabia que ela, assim como eu, não sabia ler e escrever. Mas o fato é que seu analfabetismo sempre me ensinou a amar o mundo das letras. De lá pra cá, as lembranças desses tempos são saudades boas de ter. 

domingo, 10 de maio de 2015

QUEM SÃO NOSSOS AMIGOS ?





 Então, você tem amigos? Ou seria amigo? Na verdade, o plural pouco importa porque verdadeiramente neste caso o que vale é a qualidade, não a quantidade.       

           Um amigo de verdade divide alegrias. Um amigo de verdade jamais se sentirá incrivelmente feliz e esconderá de você essa felicidade. Ao contrário! Ele o buscará na China, se preciso for, mas dirá a você de forma radiante o motivo de sua felicidade e sabe por quê? Porque no momento em que ele divide a própria alegria, ele sente que ela é DUPLICADA!!! Amigo de verdade VIBRA com a felicidade, com as conquistas do outro.

           Um amigo de verdade faz festa com pouca ou muita coisa. Pouco importa! Um jantar acompanhado de pessoas elegantes, cardápios requintados e boa música é motivo de muita satisfação, muita mesmo! Mas é na inesperada visita e combinação de quinze minutos que fazem um café, dividem um assado qualquer, umas boas risadas é que SÃO FELIZES!!! Um amigo de verdade não tem educação. Ele respeita a intimidade, mas a privacidade.... A cama dele é sua. A geladeira dele é sua também. Amigo de verdade engole sapo e qualquer anfíbio por causa do outro. É lei! A amizade nos faz conseguir suportar com humor os defeitos ou manias que não suportamos naqueles que não são nossos queridinhos.  Tenho impressão de que são anjos, só podem ser anjos. Não há como ser diferente. Como explicar pessoas que apareceram em nossas vidas, assim, sem mais nem menos?

         Mas não é somente isso.  Conte-me quem estava com você nos momentos mais difíceis de sua vida. Não, eu não quero que conte a mim ou conte ordinalmente, se é que preciso ser clara. Reflita sobre quem estava com você nas horas mais agonizantes. Pois é!!! Esse é seu amigo!!! Uma amizade duradoura não passa apenas por momentos aprazíveis; Ela, também, é um pilar de sustentação. Amigo de verdade divide alegrias, conselhos, decepções e lágrimas. Ele conhece sua dor. Você conhece a dor dele. Não existe teatralidade. Ambos estão no fogo e água, queimando ou nadando.

           Além disso, a distância que se instala por causa dos filhos, do trabalho corrido, do marido ou do namorado, não é suficiente para apagar a lembrança um do outro. Isso se chama liberdade e saudade.

             E por último, amigo de verdade se mostra!!! Amigo de verdade mostra o seu lado mais feio para o outro. Somente a verdadeira amizade é capaz de nos fazer revelar a outro o que não gostamos em nós, ainda que não encontremos nenhum tipo de aprovação ou condescendência. O que importa é demonstrar ao outro que somos inteiros, sendo parte bonitos e feios, e somente amigos comportam-se assim.

Deus abençoe os bons amigos...


domingo, 3 de maio de 2015

Orgástica Solidão: O DIÁRIO SECRETO DE K

Orgástica Solidão: O DIÁRIO SECRETO DE K:       Hoje, minha torrada queimou. Também não gosto de cachorros. Gosto de gatos, eles são interesseiros e verdadeiros. Os gatos mos...

O DIÁRIO SECRETO DE K




      Hoje, minha torrada queimou. Também não gosto de cachorros. Gosto de gatos, eles são interesseiros e verdadeiros. Os gatos mostram-se. Decidi tomar apenas o café, o café quente. Enquanto aquele líquido negro adentrava em minha boca, eu sentia um prazer inenarrável, um prazer vigoroso, um prazer divino. Naquela manhã, minha mente estava forte novamente e  eu cedia, cedia ao meu bel-prazer. Como desejava que aquele líquido fosse mais grosso, como eu desejava que fosse mais viscoso.  Minha boca enchia-se de saliva e eu tinha apenas aquele pobre café em minha caneca.

 _ Bom dia senhorita Júlia Kass!  Chegou cedo hoje. O que aconteceu?!
Jorge, colega de trabalho e especulador assíduo de minha vida, inquiria-me. Passei por Jorge. Não falei nada. Queria mesmo me afogar em todos aqueles relatórios, eu não queria ser uma ameaça novamente. Confesso que nunca senti remorso, nunca senti piedade  pelas  pessoas que eu matei. Acho que existem seres divinos que estão nesse mundo para fazer outros seres, também divinos, experimentar os mais diferentes sentimentos e sensações. Aqui, eu estava: destinada a implantar o terror.

       ´´Tadeu sofreu pouco`` era o que eu pensava enquanto eu redigia mais um conselho amoroso em minha coluna semanal   ´´ame-me o quanto eu te amo``. Eu gostava de aconselhar outras pessoas, gostava de saber que as pessoas recorriam aos meus conselhos, às minhas percepções amorosas. Eu gostava de ajudá-las.

       Tadeu não saía da minha mente. De fato, ele poderia ter sido o último, mas naquele dia eu estava mais uma vez estranha, mais uma vez o meu desejo louco estava a me cercar, a me tentar. Eu, naquela noite, iria cair.
Fim de tarde. Ele, o terror,  se instalou em mim.

_Júlia, que tal sairmos para algum barzinho próximo? Tomar um drink?
_Querido Jorge, se eu fosse você não me faria este convite...
( um sorriso e um semblante enigmáticos estavam em meu rosto).
_Não só faria como já fiz! E não aceito recusa! Ouviu ? mocinha.
_Certo, mas antes passaremos em minha casa.
_ Combinado!

          A minha ansiedade crescia. Seria hoje o grande prazer. Ahhh que maravilha poder me revirar em cima de mais um corpo...
Chegamos. Deixei Jorge na sala. Dei-lhe um drink. Acrescentei a ele  um veneno.
Logo, Jorge estava inerte. E eu estava com todo aquele homem apenas para mim. Tirei-lhe as vestes. Todas elas. Comecei com o meu pequeno canivete. Tirei suas unhas. Cada uma. Todas as vinte estavam em uma bacia pequena de inox. Enquanto tirava,  ao mesmo tempo, sugava todo sangue que jorrava, que lavava meu corpo também nu.
Depois, retirei parte do fígado. Gosto de fígado. Gosto somente de fígado humano.

         Não vejo utilidade para os olhos. Algumas pessoas não os merecem. Retirei os olhos. Confesso que retirar os olhos exige perícia, uma vez que podem ser estourados antes mesmo do  seu deslocamento.  O primordial é fazer uma grande abertura, confesso que a técnica que uso é orientada pela medicina veterinária a animais de pequeno porte, mas Jorge tem apenas 1,7 m e a todos que tem esta estatura eu aplico e não vejo mal. Sempre consigo tirar todo o globo ocular sem causar danos ao meu paladar.

        O coração dele ainda batia. Retirei seu pênis. E todo prepúcio com o canivete. Coloquei em uma outra vasilha, esta , um cristal. Não vejo utilidade nas orelhas. Retirei-as. Não as como. São muito firmes. Temo prejudicar os dentes.  

         Logo mais, fiz um corte profundo em sua garganta que fez seu corpo reagir com um abrupto solavanco o qual fez derramar tudo o que eu desejava durante o café matinal: o sangue.
Suguei, senti aquele leve amargo, salgado e quente sangue. Quanto prazer...quantas sensações maravilhosas...meu corpo se retorcia banhado  naquele líquido carmim. Dos meus  seios eriçados pingava o precioso líquido, a minha fonte de vida.
Retirei todo seu couro cabeludo. (É apenas uma visão financeira de que, no futuro, eu possa vender  perucas). Arranquei seu coração. Finalmente, lá,  estava  o coração de Jorge, o homem mais mulherengo da cidade, e eu estava com seu coração em minhas mãos.
( no outro dia...)

´´Querida Amanda, ame a si e viva da melhor forma possível! Ocupe seus dias com atividades diferentes; saia com seus amigos; leia um livro etc. Esqueça quem não te ama!``. Era o conselho que eu dava a uma de minhas leitoras através de minha coluna. Ela havia saído com Jorge. Enquanto isso, eu bebia o café quente e sentia seu  gosto, não mais outro sabor, pois o desejo de antes havia saciado. Ao menos, por enquanto...

sexta-feira, 1 de maio de 2015

CANSADA





Depois de tanto tempo, estou aqui para protagonizar mais uma carta para você, na verdade, estamos.

Ainda que você inexista no meu mundo, na minha experiência, é sua ausência que muito me traz todas as lembranças, sensações e sentimentos. É sua ausência uma das coisas mais ativas em minha vida.
 

Hoje, após dois anos e sete meses, eu recebi a carta de convocação, esta tão sonhada e determinante para outro percurso de minha vida, aquele que você já muito sabe, já muito sabia de tudo que tenho no meu coração.

Durante os aparatos de minha mudança, encontrei coisas escritas muito antigas, coisas as quais já diziam muito de mim, de nós. 

Peguei-me nesses devaneios ... Eu sempre tive você aqui comigo, ainda que eu nunca soubesse. Eu sempre me pertenci, apesar de nunca saber o quão fugidia eu era, sempre fui.
Agora, estou cansada mais uma vez....