domingo, 27 de setembro de 2015

sábado, 26 de setembro de 2015

A CHAVE DA VIDA




               Passavam das quinze horas e fui tomar meu café habitual e solitário. Eu tomava minha xícara de café quase que concomitantemente com minha cerveja, e hesitei em pedir o refrigerante para não chamar tanto atenção, naquele dia , eu estava tímida.

            Eu conseguia estar feliz sozinha... Ahhhh... Sozinha.... Que maravilha! Eu e minha solidão eram companheiras inseparáveis, e fiéis, e leais. Até que um indivíduo misantropo me interrompeu:

_ A chave.

            Olhei para as mesas ao lado e o que vi foram pessoas conversando, rindo alto, gesticulando e, a um metro de distância, um olhar sério e focado em mim. Eu não conhecia aquele homem. Nunca o tinha visto. Decerto, não tinha falado comigo...  Eu tinha ouvido errado. Voltei-me para meu café quente e minha cerveja gelada e, agora, já tinha chegado o momento de pedir o refrigerante para que eu pudesse combinar com os sabores anteriores. Eu olhava penetrantemente para as bolhas do café, para as gotas de água que desciam sobre a garrafa de cerveja, e tomava meu ´´refri.`` que já tinha chegado.

_ A chave.

         Ora! Eu acabava de ouvir novamente aquela voz! Aquela voz como se fosse um pedido ou uma interrogação, não se sabia muito bem. Como se fosse a expressão de algo desconhecido, algo curioso, e também inquietante para mim.  Levantei o olhar novamente e o mesmo indivíduo permanecia posicionado frontalmente a mim com um olhar desconfortante, súplico e quase fantasmagórico... Eu não sabia explicar. Dessa vez, ele estava mais próximo de minha mesa.

          Eu fiz a mesma análise de antes: olhei para os lados. Eu queria saber se aquele sujeito falava realmente comigo, se era eu o alvo de sua verbalização. No entanto, diferente da primeira vez, eu fiz uma observação um pouco mais detalhada: eu quis saber se somente eu via aquela figura, se somente eu estava percebendo aquela imagem humana. É, eu devia estar louca.

          Para saber se o homem ali estava tentando falar comigo, em fração de segundo, elaborei um plano, um teste. Levantei e fui até o balcão. Vejam bem.
Enquanto eu fingia estar interessada nos chocolates, eu pude sentir um olhar percorrer cada ato meu; eu podia sentir e ouvir a voz daquele ser dizendo o que insistia dizer. Rapidamente, olhei e percebi que ele continuava a me encarar. Ele, o ser desconhecido, permanecia com um ar sóbrio e fixamente atento a mim. Comecei, então, a sentir um leve desconforto...  Parecia que para ele, para o indivíduo, somente havia eu ali e mais ninguém. Para ele, eu era a única pessoa que existia. Ele não conseguia acessar a mais ninguém. Perguntei a moça do balcão o que aquele homem queria, pois há um certo tempo, ele estava parado, em pé, e poderia estar esperando atendimento (esta foi a desculpa esfarrapada que inventei para saber se a moça também conseguia ver aquele homem), e para minha surpresa, ela me ignorou completamente. O lugar estava lotado e, apesar de ela tentar atender a todos com presteza e atenção, era muito difícil agir assim.

_ A chave.

             Quando voltei para minha mesa, e eu já sabia que agora somente eu poderia vê-lo, continuei por poucos segundos a fingir que nada ouvia. Debalde. Logo ouvi pela terceira vez a insistente solicitação afirmativa e exclamativa, talvez.

            Dessa vez, quando resolvi encará-lo, percebi que agora, ele estava bem em frente a mim, bem ali, com ar sóbrio e sombrio. Sua face estava petrificada, mumificada. Não havia reação de sentimentos. Era um sujeito apático e de lábios finos, insistente e curioso. Estava vestido com um sobretudo cinza, chapéu, e permanecia com posição ereta, altiva e longos braços com mãos ao próprio corpo.  Não sei se realmente me pedia... se me pedisse algo, estaria com a mão estirada.                                         

                                                     

             Depois de um grave acidente em que fiquei por três anos completamente inconsciente, em vinte e quatro de setembro de 2015, eu saí do coma. Dias depois, já recuperada, eu, minha família e amigos decidimos comemorar minha prodigiosa volta a este mundo em um café que tinha sido inaugurado enquanto eu estava hospitalizada, perto do meu novo trabalho. Quando saíamos do ambiente, esbarrei em um moço e ele deixou cair uma chave. Ele me pareceu familiar ... Gritei por ele, ele sorriu e disse:


_ A chave, minha querida...  Eu precisava dela... e de você.



 Eliane Vale


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

EPIDERMICAMENTE MORTAIS.


                                  



Você nunca vai me contar todos os seus segredos,

E eu sempre vou ter um medo reservado que me impedirá de me dar cruamente para você .

Não vamos conseguir ficar transparentes, porque ficar assim , dói.

E não queremos doer, não queremos...

Mas como sentir tudo que podemos sentir sem dar tudo de si, tudo que temos?

Que caminho sem volta...

Que caminho sem volta ...

Doemos ou não?

Se você arrancar meu coração, eu tenho dois segredos para dizer:

Eu tenho outro coração na escuridão, aquele que fica em segredo;

E também arranco sua alma até que sangre.

Consegue lidar com animais selvagens?

Consegue?

Já experimentou animais selvagens?

E se eu fugir repentinamente, desaparecer e fizer tudo errado, não é porque desisti, é porque eu não suportaria sentir mais do que eu estava sentindo.

Eu não tinha opção: eu tinha que fazer tudo errado para matar você dentro de mim.

Não tente me domar, é em vão.

Animais possuem garras e quando se sentem acuados, infelizmente, fazem duas coisas: ou fogem, ou avançam, e em qualquer dessas opções, machucam.

Se não puder sangrar, não venha.

Porque todo selvagem fica sem a pele, mas não desiste no ápice da luta.

Somente paramos, animais selvagens, somente param quando morre cada força.

Vingança? Não, não é.

É o desejo intenso de levá-lo a tudo que consigo sentir;

É o desejo que você queime tanto quanto eu.

Eu nunca prometi que seria eterno, mas eu também nunca prometi que não te mataria.

Eliane Vale .

sábado, 19 de setembro de 2015

CARBONO






 E se acaso, José, você não me reconhecer, e se este meu jeito de falar, de olhar e sentir não for este ou deste modo que falo, digo-lhe que é porque mudei. Porque mudar, José, é coisa que ocorre com humanos e animais, até com humanos ainda que sejam animais, e com animais quase  humanos. Talvez, e se o café que eu fizer, não for mais o quente e forte, é que também mudei de gosto: adocei! Mas lhe digo que, se alguns se vão como correnteza sem saber para qual mar se desembocam, se alguns se vão dançando sem saber a música ou qual música que dançam, digo-lhe que este não é meu caso. Não, não é. É que os anos me fizeram fibra de carbono, composta por filamentos rígidos mas leves, muito leves. Com a dureza, a rigidez, eu caminhei para onde desejei por toda vida, sem titubear ou declinar de ser eu, nem que para isso houvesse a necessidade de usar mais filamentos de mim. Com a leveza, fiz a poesia que a alma precisa, pus o sorriso no rosto, a fé no coração e a constante esperança na paz, ternura e criança. Veja, eu não sou feita de um único elemento. Sou de carbono, em tudo que nele há. Então, não espere me encontrar, assim, sendo eu agora, porque vou mudar, indubitável e impreterivelmente, por escolha, por decisão. E se você se assustar, não se preocupe. Não! Quero que se assuste, porque não quero ser eu, ainda, daqui a muitos anos. Quero ser outra pessoa, aquela para qual vim ser ... Foi somente uma decisão.