quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Nessa vida, o que diz o seu coração?









Quando criança imaginamos e desejamos inúmeras coisas. É fácil todas elas. Ser astronauta ou bombeiro tem o mesmo grau de dificuldade e, sendo criança, o grau é quase nenhum. O que basta mesmo é o desejo ardente no peito de dizer ´´quando crescer, quero ser ...``

Contudo, ao crescermos, passamos por situações que nos fazem esquecer essa criança dócil que havia em nós. E com isso, tornamo-nos arredios e fiéis, não aos nossos sonhos mais íntimos e genuínos, mas fiéis ao fluxo do mundo, às tendências das correntezas. Por fim, quando nos perdemos por completo, fazemos parte da média, isso mesmo, da média das pessoas que pouco vivem ou pouco sonham; pouco desejam ou pouco se arriscam. Nesse momento, matamos o nosso coração e toda a capacidade de ser quem desejamos ser; toda a capacidade de sermos aquele para o qual realmente viemos para ser.

Muitos de nós não somos o que queremos ser. Pensar que morreremos e perderemos a única oportunidade  de ser tudo o que um dia nosso coração fez bater é algo desastroso.
Mas se você realmente quer imaginar isso, quer imaginar o quanto isso pode ser fatal, pense exatamente agora que você não viverá para sempre, e que irremediavelmente, seu último dia chegará. 

Neste exato momento, o arrependimento e a tristeza por não  ser ou fazer o desejo de seu coração lhe atormentará. Você não tem mais tempo. Todo o tempo que você achou que tivesse era uma armadilha de sua mente: você não tinha todo o tempo do mundo. Então, sob essa perspectiva, aproveite agora o que há de mais verdadeiro no seu coração. O seu mundo é o que há nele.  Esqueça a média das pessoas que fazem o que sempre fazem, que dizem o que sempre dizem. Não! Isso não é caso de rebeldia. Apenas, faça e sinta o que existe no seu coração. Não há como ser verdadeiro com os outros, se passou a vida inteira mentindo para si. Comece do zero. Comece o ano sendo você, porque isso pode lhe provocar desconforto e medos, mas jamais será uma mentira ou covardia.








Por: Eliane Vale


sábado, 26 de dezembro de 2015

As cartas de Medeline: variações da peça.




( Prosa Poética)

Verdade e mentira
Sou verdade, muita verdade
E mentira, muita mentira
Verdade e mentira?
Verdade e mentira.
Passo pelos lugares e observo pessoas:
Quem são as de verdade?
Quem são as de mentira?
Acaso, qual roupa vestiram naquele exato momento em que as vi?
Em que as senti?
Ahhhh.....
Verdade e mentira....
No bar, pedi uma dose.
Queria saber que pessoa eu ali sairia, depois do meu alcoolismo.
Não! Nem o álcool consegue me responder.
Nem a droga  lícita consegue fazer isso por mim.
Ninguém consegue fazer isso por mim.
Pedi três cigarros: um para mim, outro para mim, e outro para mim também.
Lembrei-me: NÃO FUMO!!!
Vendedor! Vendedor!
Eu não fumo!!! Eu não fumo!! Como pode me vender isso?
Verdade... e mentira...
Quem é de verdade?
Quem é de mentira?
Comprei sapatos. Calcei-os. Fizeram-me calos.
Mas os sapatos realmente eram pra mim!!!
Eles me fizeram CALOS!!
Vendedor!!! Vendedor!!!
Finalmente os sapatos me fizeram calos!
Os sapatos eram para mim....
Verdade e mentira...
Verdade. Mentira.
Abri a carta mais uma vez.
O defunto me contou que me ama.
Idiotas andam a esmo em qualquer cama
E, por isso, se oferecem.
Verdade. Mentira.
Tire a roupa boneca, homem, criança.
Quer café?
Matei dois homens hoje à tarde.
Não gosto de matar. Mas matei dois homens hoje à tarde.
Vou matá-los sempre. É um vício.

Verdade. Mentira.
Verdade. Mentira.
O baile permanecia cheio quando retirei a máscara.
Debaixo, outra máscara.
E outra,
E outra.
E outra,
E outra,
Todas eram verdades
E mentiras

Que nem eu sabia que existiam.




Por: Eliane Vale

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sobre o eu que há em mim





Todo nosso julgamento é parte íntima, muito íntima de nossa própria experiência. Se somos capazes de perdoar ou amaldiçoar algum fato alheio, é muito provável que agimos de acordo como agiram conosco; é muito provável que semelhante ato, cometemos ou estivemos na iminência de fazê-lo; isso, porque vivemos na velha lei de talião: olho por olho, dente por dente. 

Alguns humanos, porém, conseguem a proeza de agirem diferente, de responderem contrariamente ao perdão negado, às desculpas que não foram aceitas. Mas esses humanos são exceções. Certamente, em toda sua vida, em toda minha vida, nós haveremos de conhecer apenas um exemplar quando possível. Um conselho: agarrem-se a esse exemplar escasso. Não deixe que ele escape sem destruir um preconceito ou um defeito seu. Isso fará muita diferença para você, dentro de você.

Há quem diga que a centelha divina sobreviva no ser humano, contudo, é apenas uma centelha, apenas uma centelha sob um envoltório de humanidade pecaminosa. Sendo assim, lutar contra nossa humanidade e ainda estar intrinsecamente ligado a ela é quase como conviver com um inimigo que é impreterível a nossa própria evolução.

Quando apontamos o outro, mas no meio do defeito alheio, conseguimos identificar o que temos em comum com o nosso alvo, é dolorido, mas revitalizador.Perceber isso significa que estamos realmente compreendendo a nossa humanidade falha, suja e renovadora. Quando me perco demasiadamente no outro, estou dando muito espaço, muita importância a quem ou ao que muito há em mim. Isso também é uma espécie de identificação. Não há como falar reiteradamente sobre rosas sem ao menos nunca ter sentido o perfume delas.
Sigamos em paz e aprendendo.





Por: Eliane Vale

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A PAZ NA GUERRA













Os cavaleiros se reuniram.
Mas digladiavam, mas se rebelavam, mas se destruíam.
Os cavaleiros se reuniam, reuniram-se.
Mas se entregavam à destruição, a dor, ao infame.
Até que o próprio caos chegou.
O caos trouxe a ordem.
Receberam o caos, os gladiadores.
O caos trouxe a ordem.
Havia ordem no caos.






Por: Eliane Vale

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os dados de Deus.








Eu, agora a pouco, estava em um lugar.
Estava junto a amigos.
Lá, minha presença exercia um impacto, uma força, uma alteração naquele ambiente.
Mas, agora, naquele ambiente, estou morta.
Sou ausência.
Nada tenho parte.
E como saber se minha ausência exerce ainda alguma impressão?...

Em alguns momentos, a nossa ausência causa. A nossa ausência, em alguns momentos, é ativa!
Em outros momentos, é um nada, o nada!!!

Mas eu, agora, já causo ou não causo em outro momento, em outra pessoa.
Agora, eu causo aqui; agora, causo em nós.





Por: Eliane Vale

sábado, 24 de outubro de 2015

EU NÃO SOU FELIZ EM PEQUENAS OU COM POUCAS COISAS

                                                                     



É impressionante o quanto passamos a vida inteira repetindo frases, palavras sem sentido algum. Coisas que não possuem nexo, mas que soam igualmente a axiomas, quase. Sentei-me para o ato da escrita, peguei uma taça de vinho, geralmente a que me acompanha às Sextas-Feiras, e estava disposta a escrever sobre o quanto somos capazes de ser feliz em pequenas coisas, com poucas coisas. 






De súbito, um sentimento questionador me invadiu, e antes de eu refutar uma verdade que me escravizava há muito tempo, pesquisei em alguns dicionários o significado para três palavras. Abaixo, deixo-as para análise:


Pouco: em pequena quantidade;


Pequeno: que é feito em limitada escala;


Felicidade: êxtase, intensa alegria. 






Depois dessa rápida pesquisa, o que percebi foi uma incongruência milenar. Não, eu não era feliz em pequenas coisas; eu não ficava feliz com pequenas coisas. As coisas que me deixavam feliz não eram nem pequenas, nem poucas. Elas eram tão completas, tão integrais, tão intensas e extensas dentro de mim que jamais poderiam ser consideras de pouca quantidade. Essa era a incongruência a que me referia. Repito: não havia pequenez, não havia apoucamento em tudo que me fazia feliz ou que me faz feliz.






Mas, não posso negar, e era esta a divergência que havia entre eu e o mundo, que o que me fazia feliz, intensamente transbordada eram situações simples. 


O que me fazia feliz, intensamente feliz era compartilhar qualquer sentimento, qualquer situação que me arrancasse um choro de emoção, uma alegria inesperada, um estado espiritual de puro agradecimento pela vida e por estar viva, também a paz interior. Não havia nisso nada de limitado, escasso. Tudo era dado em esborrotamento. Tudo derramava-se! 






Reparem que a felicidade não é tímida, não pode ser tímida. A felicidade, um sentimento de intensa alegria, não pode caber em uma coisa menos do que ela. Prestem bem atenção: o mundo é feito sob leis universais perfeitas e, entre elas, não existem vazões do que é grande pelo o que é pequeno. Já lhes disse: o maior não cabe no menor, não cabe! Para brotar o que é grandioso, originalmente o fruto também virá de algo grandioso, pode ser simples, na maioria das vezes é simples, porém não é pequeno, reles. E simples, meus caros amigos, quer dizer apenas que não é preciso que seja muito engendrado, complexo, exclusivo. Percebam que não existe uma relação do que é simples com o que é reles, baixo ou desprezível. A definição do que se é simples é apenas dizer o que é natural, comum e potencialmente encontrável nas mais variadas situações. Vejam que o valor do simples é justamente o fato de ele ser possível a todos nós, a qualquer momento.









Diante disso, percebi que era impossível eu ser feliz em pequenas coisas. Sou indisposta a coisas pequenas e poucas, mas as simples, as inocentes, as singelas, as comuns são as que me comprazem.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A BAILARINA




                                                                     

Danças, bailarina! Danças?
Quão leve é teu corpo e tuas plumas...
Quão delineado é teu vestido e teu corte corporal...

Mas , danças? Danças, bailarina?
Saltava no palco, em altos voos a perfeição.
E sobre ti, os olhos eram de sublimação

Mas, Danças... Danças ? Danças, bailarina!!!
Veja! O espetáculo espera por ti!
Ahhhhhh... O palco!!!! O PAL-CO!!!! 
PALMAS PARA TI!

Não! Não digas que em teus pés há calos!
Não digas que possuis órgãos fraturados!
Não digas que teus dedos são feridos 
E possui ferida INCURÁVEl !

Não digas.


A beleza, a beleza é uma falsa anfitriã.
Mas é a feiura, é a feiura que possui a destreza de suportar os calos e a dor.
Vá para o palco, bailarina, e danças... DANÇAS!

É de porcelana?
Mas cacos possuem lâminas !!!
E se é de porcelana, não quebras?
O que há nesta submersa peça?

Com pele alva da máscara teatral cativas também animal?
Ahhh... bailarina... DANÇAS!!! Danças, fera triunfal!
Não percebes que tuas dores alimentam tua beleza?
Que tua leveza vem da chaga em ti instaurada?
E quando voas, és o mais lindo pássaro fulgural?
Então, danças minha pequena fera,
Porque eu hei de esperar por ti,
Para todo o sempre, a tua essencial PE-ÇA !!!

Eliane Vale

sábado, 10 de outubro de 2015

Quando eu morri pela primeira vez


                                                



As maiores mentiras não são as que os outros contam. Somos nós mesmos que fingimos acreditar e acabamos acreditando. Não são os outros os maiores mentirosos, somos nós mesmos, pois, ainda que sabendo ou desconfiando de toda verdade, ainda creditamos, isso mesmo, fornecemos crédito ao que nos contam.   Passei e passo boa parte de minha vida enganada, porém, também desconfiada. O que me engana sempre são os sentidos. Eu não posso confiar nos meus sentidos plenamente, digo sobre esses sentidos tradicionais que todos sabemos dele.

Além de não estarmos e não podermos estar no controle absoluto de nossa vida, ainda podemos ter uma visão muito deturpada das coisas, uma visão fora da caixa, digamos assim.
Tudo começou com um sorvete. Na verdade, não foi com o sorvete, mas posso dizer que o ápice, a conclusão do que digo principiou com um sorvete.  Talvez fizessem duas semanas ou mais em que eu não estava mais conectada a este mundo, talvez essa sensação estivesse perdurando por duas semanas.... Não me lembro mais. E, naquele dia, enquanto eu e meu interlocutor discorríamos sobre filosofia e literatura, algo muito inusitado ocorreu.

Ambos tomavam um sorvete e fui lentamente sentindo uma sensação de dormência e deslocamento. Não, eu não me refiro a um mal súbito, não é isso. O que acontecia naquele momento era outra coisa, outra coisa que me faz dizer que o que vemos não é o que vemos; que o que sentimos não é o que sentimos; e que me prova que quando tenho grandes certezas, na maioria delas, senão todas, estou metida no mais profundo engano e erro.

Veja só. O meu interlocutor discorria sobre os assuntos que já citei e eu, sentada bem ali, começava a sentir a sensação de flutuação. A minha respiração começou a ocorrer muito lentamente, meus ouvidos começaram a ouvir muito distante, até quando não mais ouvia. Comecei a ficar preocupada...  Eu estava ainda ali? Eu precisava disfarçar que estava! Mas eu não estava! Eu não estava! Comecei, então, a perceber o mundo, as pessoas, e todo o meu espaço derredor de uma forma tão incrivelmente lenta e ENCENADA que comecei a pensar que estivesse morrendo.... SÉRIO! Eu estava no teatro do mundo! Eu estava sentada na primeira fila do espetáculo, na verdade, eu era a única pessoa da plateia. 

Assim, eu comecei a imaginar que naquele instante, eu estava morrendo. E melhor, eu comecei a gostar daquela sensação de morte.
Com o passar da conversa, eu comecei a fazer gestos indicativos que ouvia o que meu interlocutor dizia, mas eu não estava mais ali. Não conseguia mais ouví-lo. Logo, eu parei de ingerir o sorvete e fiquei olhando os carros e as pessoas.
Principiou em mim a ideia de que os meus sentidos estavam me traindo...  Que tudo o que eu via bem na minha frente não era real e, naqueles minutos, eu estava experimentando um outro tipo de realidade muito mais ampla, muito mais submersa, muito mais tranquila e de profunda paz. Comecei a ficar preocupada com uma coisa: meus sentimentos de paz e tranquilidade eram tão grandes, tão profundos que além de minha respiração e batimentos cardíacos   terem diminuído, eu me senti pairar... ISSO MESMO! Comecei a sentir que algo projetava de mim e que esse algo era EU MESMA! Era eu que estava me deslocando de minha própria carne. Com isso, o que me ocorreu foram duas coisas: ou eu estava entrando num estado de morte, ou se eu continuasse daquele jeito, logo, meu amigo perceberia que havia em sua frente uma duplicação de mim. Eu não poderia deixar que ele percebesse isso!  Então, senti-me totalmente dividida! Entregaria-me a morte ou não?

Apesar de toda a rua estar completamente movimentada, eu pouco ou quase não ouvia barulho do mundo. Eu via as pessoas passando lentamente; os carros; os acontecimentos...
TUDO ERA UMA GRANDE ENCENAÇÃO de alguém que tentava me enganar. Naquele momento, eu acabava de descobrir:  A REALIDADE NÃO EXISTIA! O mundo estava meticulosamente orquestrado...  Nada era por acaso. Finalmente, eu tinha descoberto.

O que é real, o que é verdadeiro é apenas parte de uma pequena e ínfima percepção que temos; tudo o que se mostra, assim, somente é dessa forma porque é alimentado pelos nossos sentidos, de modo que se conseguirmos, ou melhor, se conseguíssemos avançar a um nível de percepção, de sentidos um pouco maior do que temos, em poucos segundos, nossas angústias e medos se desmontariam, pois, nada é para sempre. Contudo, poderíamos perceber mais claramente nossos medos, inseguranças, alegrias e prazeres se refazerem repetidamente pela simples sensação de não estarmos presos ao tempo, a esta realidade mentirosa.  É engraçado pensar que quando imaginamos que algo é para sempre, pensamos que ela durará a vida inteira, no entanto, se observarmos bem atentamente, o que chamamos do ´´sempre`` é o tempo que ela durar. Frase poética? Não...   Não é isso... rsrs.  Todas as sensações que moram nesse ´´sempre`` que conhecemos nessa nossa realidade é tão falho, tão mutável o quanto uma noite de sexta-feira: tudo pode acontecer ou não. Porém, outro sempre, outra eternidade, aqueles que podem ser alcançados com outros sentidos, não podem ser suportados por uma casa finita que é o corpo humano. Compreendamos: o maior não cabe no menor. Não cabe! É simples!

Eu desisti do sorvete. Passei o tempo todo em silêncio e com o medo de ser descoberta que não estava ali, aliás, que estava em dois lugares ao mesmo tempo. Minha tentativa de disfarce era tão intensa e ao mesmo tempo preocupada que a sensação que eu tinha era que se eu avançasse mais um pouco naquela emoção, meu corpo desabaria sobre aquela cadeira e eu ficaria do lado dele, do lado de meu próprio corpo, observando sua ação inerte, sem vida, enquanto uma multidão e meu amigo me socorreriam.  Em razão disso, eu me aprisionei, pois eu não queria causar aquele tipo de transtorno.

Fiquei sobre o meu próprio corpo e oscilava entre a realidade do mundo, deste mundo, e minha outra realidade. Quantas vezes ficamos assim? Paralelos em nós mesmos? Eu não sei...
Mas seguindo essa sensação, comecei a perceber pequenas conexões entre eu e eu, entre eu e as coisas, entre eu e as pessoas, entre eu e o mundo.  Passei a captar mensagens no silêncio, passei a captar mensagens nas vozes das pessoas, passei a captar mensagens nas atitudes delas. Elas, as pessoas, e todas as coisas desse mundo começaram a se tornar meios de recebimento de mensagens e isso começou a fazer sentindo, inclusive em coisas banais e corriqueiras. Por exemplo?
 Somos pegos de surpresa por coisas banais. O extraordinário, o inusitado, o engano e o erro não são anunciados com uma placa de promoção ou coisa do tipo. Lembremo-nos que a essencialidade dessas coisas é a surpresa, de modo que, todas elas moram nos lugares mais simples, mais comuns, mais corriqueiros que podem existir!  Quando tenho uma certeza muito grande é um sinal de alerta, PRECISA SER UM SINAL DE ALERTA! Principalmente se essa certeza tiver sido atribuída pela quantidade de vezes que já estou adaptada a um fato ou uma ação. Por mais que repitamos ou que julguemos saber de algo, toda ação é uma experiência, de forma que sempre existe a porcentagem para o novo.

A vida segue um padrão. Mas também quebra padrões. E não adianta passar a vida inteira acreditando que você irá fazer o mesmo café, pois um dia, amigo, você não vai. Acredite!
Uma hora você verá que as coisas não estão mais no lugar e que você está dentro dessas coisas. Fazer o quê?  Você sempre vai encontrar a surpresa quando tiver certeza. São as certezas que fornecem as surpresas; As certezas são os disfarces das surpresas...  Entende? Outro dia, eu fazia uma ação tão banal e fui pega mais uma vez. Outro dia, eu conversava com um amigo e fui pega outra vez: mais uma vez eu recebia uma mensagem do mundo paralelo que lhes conto. Outro dia, eu era mais nova; outro dia, eu nem era eu; outro dia, eu era outra pessoa. Outro dia, eu era para sempre e, agora, sou o para sempre que agora sou.

Desculpem-me, mas vocês não podem me enganar. Como vocês fazem parte dessa realidade limitada, então, vocês, também, contribuem para essa grande encenação que vejo; eu também dou a minha contribuição a vocês. Estamos no mesmo barco.  Já lhes disse: todos estamos no teatro do mundo.

Quando passo por aquele lugar, eu gostaria de resgatar aquela experiência que tive, mas ela foi única. Terei outras, tenho outras, mas aquela que mesclava entre morrer, uma boa conversa e um sorvete de chocolate...  Essa não mais virá. De lá pra cá, tenho gritado ao dono do mundo e o desafiado. _QUEM ESTÁ AÍ a me comandar? Ele me ignora completamente, mas eu que não deixo as coisas baratas, disse-lhe que iria contar ao mundo todo o seu joguinho. Estou contando; eu cumpro minhas promessas.  Deus tem medo de mim. Certamente, ELE me cobrará por isso, mas eu prefiro ser o algoz que denuncia Deus ao fantoche dessa fraturada realidade. Então, agradeçam-me por eu ter dito tudo isso, pois corri um grande risco. 


Eliane Vale


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O CANIBAL

                                                   



Foi parindo aquele deformado bicho
Foi parindo os filamentos afiados
Foi parindo aquele denso e ignóbil ser
Foi parindo...
Parindo-se.
O útero se contraiu e ejetou.
Havia comido a dor.
E somente come a dor quem a consegue parir.
E somente pari a dor quem um dia conseguiu comê-la.
E se conseguiu comê-la,
 Já é muito maior,
Muito mais escuro,
Muito mais mortal do que ela.


Eliane Vale 


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

QUANTAS VEZES É POSSÍVEL AMAR ?


             




               Reencontrei um velho amigo na fila de um banco. Hoje, já em seu terceiro casamento, dizia  amar mais uma vez e que finalmente havia encontrado a mulher de sua vida. De fato, a vida, para ele, permanecia estabilizada: o casal estava compenetrado na educação dos dois filhos. O homem de pouca idade e me perdoem aqueles que consideram uma pessoa de quarenta anos velha, era casado a pouco tempo_ cinco anos_ se considerarmos que com as outras ele passara relacionamentos bem mais duradouros. Parecia-me feliz, era isso que meu antigo e bom amigo me parecia. Enquanto o tempo se estendia, ele me contava o que fazia da vida e como conhecera a sua esposa. Seus lábios contavam a sua história, mas em mim, eu fazia uma pergunta interna: O que aconteceu com os amores anteriores? O que aconteceu?


              Bem, aquela conversa terminou e nós trocamos emails para posterior contato. Não havia dúvida, meu amigo amava.
As pessoas me dão muito. Sempre me dão. Eu ganho muito com as experiências às quais sou exposta e, por mais que eu tente manter as coisas naturais, eu sempre capto uma fina camada escondida, uma fina camada sob aquilo que não se diz ou não se tem coragem de dizer.
            
             A vida também nos dá coisas nos momentos mais inusitados. Surpresa, como o próprio nome já diz, é aquilo que nos tira do lugar e que nos empurra a um momento de êxtase ou reflexão em fração de segundos. Assim, foi o que aconteceu quando conheci a seguinte frase: ´´ Somente é possível amar uma única vez``. Quem disse a frase? Outro amigo. Esse, apesar dos muitos relacionamentos, sempre foi muito claro ao dizer que nunca amou. Ele me dizia que estava apaixonado, estivera apaixonado em raras vezes, mas nunca me disse que amou verdadeiramente; e ele ainda busca por esse amor sublime.  Segundo ele e com convicção espantosa, dizia-me que o amor não acaba, logo, não poderia ter amado nenhuma vez, mas estivera apaixonado, ou muito apaixonado, em algumas vezes.
         
             Sinceramente, eu saio dessas conversas, desse tipo de conversa como se eu estivesse me refazendo. Meu intuito, no primeiro momento, é tentar descobrir quem está certo. Seria aquele que disse amar pela terceira vez ou este que me disse que nunca amou, pois, segundo o último, reiteradamente, o amor não acaba.
Está aí uma questão que me acompanhou por muito tempo.  Obviamente não falo do amor universal, fraternal; o que discorro aqui é sobre o amor entre duas almas que se desejam e se permitem sonhar com planos para este mundo e, quiçá, para outro também.
           
             No vai e vem da vida, encontrei o último personagem. Após três anos distante de quem um dia  julgou  estar apenas apaixonado, ele a reencontrou e se descobriu amando, contudo,  e em apenas um ano, o amor eterno e incondicional entre ambos foi abaixo. Agora, naquela conversa pelo telefone, disse-me que em toda a sua vida, apenas naquele momento e por aquela mulher, havia nutrido o amor realmente, no entanto, era preciso continuar a viver. Eu lhe dei os conselhos de praxe, mas não pude esquecer, nunca pude esquecer de toda a sua certeza de ter amado uma única vez; de se saber amar apenas uma vez.  A partir daquele momento, ele precisaria seguir com o coração em frangalhos, no entanto, ele nunca mais amaria? O que faria, então? Será o amor dependente apenas de definição temporal? Sim? Ou Não?
       
             Desde então, como não consegui e não consigo responder a essa questão, e reconheço a minha ignorância na definição do assunto, busco a resposta: Quantas vezes é possível amar?
( Ajudem-me com a questão.)
_ Eliane Vale.


domingo, 27 de setembro de 2015

sábado, 26 de setembro de 2015

A CHAVE DA VIDA




               Passavam das quinze horas e fui tomar meu café habitual e solitário. Eu tomava minha xícara de café quase que concomitantemente com minha cerveja, e hesitei em pedir o refrigerante para não chamar tanto atenção, naquele dia , eu estava tímida.

            Eu conseguia estar feliz sozinha... Ahhhh... Sozinha.... Que maravilha! Eu e minha solidão eram companheiras inseparáveis, e fiéis, e leais. Até que um indivíduo misantropo me interrompeu:

_ A chave.

            Olhei para as mesas ao lado e o que vi foram pessoas conversando, rindo alto, gesticulando e, a um metro de distância, um olhar sério e focado em mim. Eu não conhecia aquele homem. Nunca o tinha visto. Decerto, não tinha falado comigo...  Eu tinha ouvido errado. Voltei-me para meu café quente e minha cerveja gelada e, agora, já tinha chegado o momento de pedir o refrigerante para que eu pudesse combinar com os sabores anteriores. Eu olhava penetrantemente para as bolhas do café, para as gotas de água que desciam sobre a garrafa de cerveja, e tomava meu ´´refri.`` que já tinha chegado.

_ A chave.

         Ora! Eu acabava de ouvir novamente aquela voz! Aquela voz como se fosse um pedido ou uma interrogação, não se sabia muito bem. Como se fosse a expressão de algo desconhecido, algo curioso, e também inquietante para mim.  Levantei o olhar novamente e o mesmo indivíduo permanecia posicionado frontalmente a mim com um olhar desconfortante, súplico e quase fantasmagórico... Eu não sabia explicar. Dessa vez, ele estava mais próximo de minha mesa.

          Eu fiz a mesma análise de antes: olhei para os lados. Eu queria saber se aquele sujeito falava realmente comigo, se era eu o alvo de sua verbalização. No entanto, diferente da primeira vez, eu fiz uma observação um pouco mais detalhada: eu quis saber se somente eu via aquela figura, se somente eu estava percebendo aquela imagem humana. É, eu devia estar louca.

          Para saber se o homem ali estava tentando falar comigo, em fração de segundo, elaborei um plano, um teste. Levantei e fui até o balcão. Vejam bem.
Enquanto eu fingia estar interessada nos chocolates, eu pude sentir um olhar percorrer cada ato meu; eu podia sentir e ouvir a voz daquele ser dizendo o que insistia dizer. Rapidamente, olhei e percebi que ele continuava a me encarar. Ele, o ser desconhecido, permanecia com um ar sóbrio e fixamente atento a mim. Comecei, então, a sentir um leve desconforto...  Parecia que para ele, para o indivíduo, somente havia eu ali e mais ninguém. Para ele, eu era a única pessoa que existia. Ele não conseguia acessar a mais ninguém. Perguntei a moça do balcão o que aquele homem queria, pois há um certo tempo, ele estava parado, em pé, e poderia estar esperando atendimento (esta foi a desculpa esfarrapada que inventei para saber se a moça também conseguia ver aquele homem), e para minha surpresa, ela me ignorou completamente. O lugar estava lotado e, apesar de ela tentar atender a todos com presteza e atenção, era muito difícil agir assim.

_ A chave.

             Quando voltei para minha mesa, e eu já sabia que agora somente eu poderia vê-lo, continuei por poucos segundos a fingir que nada ouvia. Debalde. Logo ouvi pela terceira vez a insistente solicitação afirmativa e exclamativa, talvez.

            Dessa vez, quando resolvi encará-lo, percebi que agora, ele estava bem em frente a mim, bem ali, com ar sóbrio e sombrio. Sua face estava petrificada, mumificada. Não havia reação de sentimentos. Era um sujeito apático e de lábios finos, insistente e curioso. Estava vestido com um sobretudo cinza, chapéu, e permanecia com posição ereta, altiva e longos braços com mãos ao próprio corpo.  Não sei se realmente me pedia... se me pedisse algo, estaria com a mão estirada.                                         

                                                     

             Depois de um grave acidente em que fiquei por três anos completamente inconsciente, em vinte e quatro de setembro de 2015, eu saí do coma. Dias depois, já recuperada, eu, minha família e amigos decidimos comemorar minha prodigiosa volta a este mundo em um café que tinha sido inaugurado enquanto eu estava hospitalizada, perto do meu novo trabalho. Quando saíamos do ambiente, esbarrei em um moço e ele deixou cair uma chave. Ele me pareceu familiar ... Gritei por ele, ele sorriu e disse:


_ A chave, minha querida...  Eu precisava dela... e de você.



 Eliane Vale


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

EPIDERMICAMENTE MORTAIS.


                                  



Você nunca vai me contar todos os seus segredos,

E eu sempre vou ter um medo reservado que me impedirá de me dar cruamente para você .

Não vamos conseguir ficar transparentes, porque ficar assim , dói.

E não queremos doer, não queremos...

Mas como sentir tudo que podemos sentir sem dar tudo de si, tudo que temos?

Que caminho sem volta...

Que caminho sem volta ...

Doemos ou não?

Se você arrancar meu coração, eu tenho dois segredos para dizer:

Eu tenho outro coração na escuridão, aquele que fica em segredo;

E também arranco sua alma até que sangre.

Consegue lidar com animais selvagens?

Consegue?

Já experimentou animais selvagens?

E se eu fugir repentinamente, desaparecer e fizer tudo errado, não é porque desisti, é porque eu não suportaria sentir mais do que eu estava sentindo.

Eu não tinha opção: eu tinha que fazer tudo errado para matar você dentro de mim.

Não tente me domar, é em vão.

Animais possuem garras e quando se sentem acuados, infelizmente, fazem duas coisas: ou fogem, ou avançam, e em qualquer dessas opções, machucam.

Se não puder sangrar, não venha.

Porque todo selvagem fica sem a pele, mas não desiste no ápice da luta.

Somente paramos, animais selvagens, somente param quando morre cada força.

Vingança? Não, não é.

É o desejo intenso de levá-lo a tudo que consigo sentir;

É o desejo que você queime tanto quanto eu.

Eu nunca prometi que seria eterno, mas eu também nunca prometi que não te mataria.

Eliane Vale .

sábado, 19 de setembro de 2015

CARBONO






 E se acaso, José, você não me reconhecer, e se este meu jeito de falar, de olhar e sentir não for este ou deste modo que falo, digo-lhe que é porque mudei. Porque mudar, José, é coisa que ocorre com humanos e animais, até com humanos ainda que sejam animais, e com animais quase  humanos. Talvez, e se o café que eu fizer, não for mais o quente e forte, é que também mudei de gosto: adocei! Mas lhe digo que, se alguns se vão como correnteza sem saber para qual mar se desembocam, se alguns se vão dançando sem saber a música ou qual música que dançam, digo-lhe que este não é meu caso. Não, não é. É que os anos me fizeram fibra de carbono, composta por filamentos rígidos mas leves, muito leves. Com a dureza, a rigidez, eu caminhei para onde desejei por toda vida, sem titubear ou declinar de ser eu, nem que para isso houvesse a necessidade de usar mais filamentos de mim. Com a leveza, fiz a poesia que a alma precisa, pus o sorriso no rosto, a fé no coração e a constante esperança na paz, ternura e criança. Veja, eu não sou feita de um único elemento. Sou de carbono, em tudo que nele há. Então, não espere me encontrar, assim, sendo eu agora, porque vou mudar, indubitável e impreterivelmente, por escolha, por decisão. E se você se assustar, não se preocupe. Não! Quero que se assuste, porque não quero ser eu, ainda, daqui a muitos anos. Quero ser outra pessoa, aquela para qual vim ser ... Foi somente uma decisão.