´´Eu queria voltar a acreditar``, essa foi a frase que ouvi,
logo pela manhã, e me chamou a atenção.
E eu fico pensando quantos de nós queremos voltar a acreditar no outro,
no companheiro, no amigo. Realmente,
relacionar-se não é nada fácil.
Estamos vivendo uma grande safra de corações quebrados. Mas,
ao mesmo tempo que digo isso, sei que em todo tempo, existiram corações
quebrados. No entanto, o que me trouxe
até aqui foi o antes e o depois de quando nosso coração é espatifado. Ao que me
parece, esses são os pontos chaves da questão.
Nascemos com coragem. Somos seres corajosos desde o nascimento,
e isso é muito perceptível quando somos crianças. Basta que observemos a
quantidade de vezes que caímos, e ainda assim, corremos desesperadamente por
qualquer coisa ou por nada mesmo, apenas pela diversão e desafio. A nossa
coragem pueril nos faz colher raladuras, hematomas e, para aqueles mais
atrevidos ainda, algum corte que nos leva a ter que passar por suturas. A
coragem que temos quando criança é admirável. A queda que sofremos na semana
passada não nos impede de correr novamente. A gente se atira mesmo. Mas, não é
assim que acontece quando crescemos. Realmente, nascemos com coragem, mas
aprendemos a ter medo, e o medo muda tudo. O medo se aprende. A coragem, não.
O grande problema de termos sido magoados, desrespeitados e
não amados como merecíamos é porque muitos de nós levamos conscientemente ou
não, essas experiências negativas para o próximo relacionamento. Ficamos com
medo. Então, passamos a nos monitorar o quanto podemos dar ao outro, seja no
amor, seja na confiança, seja no respeito. Construímos, então, um
relacionamento medido, negociado na moeda ´´só dou, se me der; só faço, se fizer``,
e com isso, expandimos nossa experiência desastrosa para outros corações,
outras vidas. Na verdade, apesar de não querermos, alargamos esse efeito
dominó amoroso em nossa vida por muito mais tempo, ainda que a
pessoa que nos fez passar por tudo isso, já tenha ido embora há séculos.
É fato que qualquer experiência pode nos trazer crescimento,
aprendizado. Mas, aprendizado e crescimento significam justamente a busca por
novos caminhos, novos interesses para conduzir a novos resultados, e talvez
seja aí, o pulo do gato, como chamam. Pois, desenhar um novo padrão do que se
quer é dificílimo, e quando se consegue, ainda temos que deixar as lembranças
negativas do passado, no passado. É óbvio que não estou dizendo que devemos nos
atirar a qualquer um sem cuidados, mas, observe que se previamente nos condicionamos
a querer algo, de cara, já diminuímos as incidências de algumas coisas que não
desejamos. O interessante disso tudo é que nenhum relacionamento é uma receita
de bolo, ok? Ou seja, ainda que você faça tudo certo, acredite, pode dar
errado, muito errado mesmo. Mas, sabe aquilo que você, eu, e todos nós sabemos
de cor e salteado? Sim! Isso mesmo! Que amar é um risco? Pois é! Amar é um
risco tremendo, então, ainda que você faça seu melhor, algo pode acontecer, mas
isso não é sua culpa! Compreenda que você fez o seu melhor.
Um dia, você acreditou em alguém com pureza e ingenuidade.
Também amou. Infelizmente,
decepcionou-se tanto que redesenhou para si o padrão que não queria que
existisse no outro. E você errou quando fez isso, e não quando amou, entende? Isso
foi o aprendizado que obteve? Não. Isso foi o medo! Foi o medo que enclausurou
você, e enclausura a tantos de nós, justamente para aceitar que o ´´menos`` ou
o ´´mais ou menos`` é o que realmente existe, e nos fazer acreditar que ficar
com um patamar mediano já é de bom tamanho. O medo é uma armadilha tremenda.
Ele reduz nossas capacidades, oportunidades, qualidades, exigências, sonhos e
esperanças. O medo não nos deixa ser crianças... A gente nunca mais corre
porque temos medo de ralar o joelho.
´´Eu queria voltar a acreditar`` é o que diz um coração
espatifado por outro, e por mais que esse outro já não mais seja presente, ele
ainda vive nesse coração. Como? As raladuras sararam, mas além das cicatrizes,
o medo se instalou.
Eliane Vale.
