sábado, 19 de setembro de 2015

CARBONO






 E se acaso, José, você não me reconhecer, e se este meu jeito de falar, de olhar e sentir não for este ou deste modo que falo, digo-lhe que é porque mudei. Porque mudar, José, é coisa que ocorre com humanos e animais, até com humanos ainda que sejam animais, e com animais quase  humanos. Talvez, e se o café que eu fizer, não for mais o quente e forte, é que também mudei de gosto: adocei! Mas lhe digo que, se alguns se vão como correnteza sem saber para qual mar se desembocam, se alguns se vão dançando sem saber a música ou qual música que dançam, digo-lhe que este não é meu caso. Não, não é. É que os anos me fizeram fibra de carbono, composta por filamentos rígidos mas leves, muito leves. Com a dureza, a rigidez, eu caminhei para onde desejei por toda vida, sem titubear ou declinar de ser eu, nem que para isso houvesse a necessidade de usar mais filamentos de mim. Com a leveza, fiz a poesia que a alma precisa, pus o sorriso no rosto, a fé no coração e a constante esperança na paz, ternura e criança. Veja, eu não sou feita de um único elemento. Sou de carbono, em tudo que nele há. Então, não espere me encontrar, assim, sendo eu agora, porque vou mudar, indubitável e impreterivelmente, por escolha, por decisão. E se você se assustar, não se preocupe. Não! Quero que se assuste, porque não quero ser eu, ainda, daqui a muitos anos. Quero ser outra pessoa, aquela para qual vim ser ... Foi somente uma decisão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário