domingo, 30 de outubro de 2016

Resposta de email: eu morri






Minha caixa de email estava cheia mais uma vez, e lá, surpreendentemente, estava o seguinte texto:

´´ Algumas pessoas mudam, mudam totalmente. Mudam porque o mundo nunca as conheceu de verdade. Tudo que viveram até dado momento era uma caricatura do que desejavam ser, do que projetavam para suas vidas, mas, em um dia, cai sobre elas a verdade do próprio ser. Outras, jamais mudarão. Jamais mudarão! São pessoas constituídas de pluralidades, e a cada tempo, vestem as roupas que são naquele momento! São pessoas mundos, como diria um poeta descompensado.  Mas, hoje, eu me lembrei de você, de VOCÊ, e não cheguei a nenhuma conclusão... Você pode me ajudar ? ``

 O email acima vinha de um amigo que por muitas vezes, também, se vestiu de camaleão durante sua vida, mas ele, ao contrário de mim, tinha acertado o passo. Ele já sabia concatenar os mundos que viviam nele. Já os meus continuavam vivendo e morrendo nos extremos que sempre viveram e que sempre foram.

O corpo possui vozes.  A cognição pode nos dar percepções mais profundas do que se vê, do que se pode tocar, e às vezes, do que se pode dizer. E este mundo é um amontoado de frequências cognitivas!!!  Sinceramente, o conteúdo do email não foi nenhum espanto para mim, apenas o que me causou surpresa foi o seu emissor. Mas não é isso que é importante: nem o conteúdo, nem o emissor.
Não é cortante! Não escrevo isso sangrando como muitas vezes escrevi, como muitas vezes deitei toda minha alma aqui. Não escrevo mais daquela forma. Eu morri. Eu estava esperando o momento exato para dizer aos mais íntimos, aos mais queridos, que eu morri. Foi uma morta triunfal, acredite! Todos os dejetos, sangue, vísceras foram expostos. Tudo de mais horrível esteve à mostra para os amigos e inimigos, por isso, fui execrada. Eu morri!  Em posse dessa verdade que lhe conto, direi a outra parte, a que foi ocultada até o presente momento. Ouça! E se for realmente do seu interesse, continue a leitura, caso contrário, pare, por favor.

Depois de minha morte, quando fui sublevada dessa matéria para outra dimensão, estive por três vezes em contato com meu demônio particular.  O primeiro encontro foi bastante atraente, lascivo.  Apesar de ele ser quadrimensional, eu sabia da existência dele, eu sabia exatamente com os mínimos detalhes que ele vivia, que estava perto de mim, que me vigiava, e que me queria. Eu conhecia o demônio minunciosamente, e nunca tive problemas com isso.  O problema é que eu não me conhecia!!  E esse sempre foi O MEU CALCANHAR DE AQUILES !!!

Não posso dizer o que nós conversamos, mas ele me deu algumas instruções.  E eu me lembro PERFEITAMENTE do seu rosto, olhar, voz e gesticulação. IN-CRÍ-VEL !!
O segundo encontro, foi bem mais perturbador. Dessa vez, não me deu NENHUMA INSTRUÇÃO !!! Nada!! O que posso dizer é que ele me desafiou. Nesse encontro, ele me fez dois testes que desejavam medir algumas coisas em mim. Mais uma vez, permaneci intacta, altiva e firme.

E por último, na última vez, pouco falamos. A sua tentativa comigo foi diferente, dessa vez. Astutamente, tentou me enganar. Não sei se ele conseguiu, mas o que sei é que suas investidas são constantes, e que apesar de eu ter morrido completamente, tenho também vivido outros padrões, outras transcendências.
Por fim, acho lamentável morrer e ficar presa

à matéria. Pessoas mortas, dessa forma, não possuem alma e isso é muito perigoso.
Ah! Ia esquecendo!!! Espero ter deixado você satisfeito.
Bom domingo!!

Sem mais, Fernanda Soares.

Secretária Execultiva da Plug Plugues.

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