Muito poderia parecer prepotência ou semelhante. Mas, em
absoluto, eu não conhecia ser que fosse veneno e cura como aquele ser que
estava bem em frente a mim.
Por vezes, muitas vezes, observei seus gestos, suas ações,
seu modo de falar.
Pouco pude descobrir. Ela é o maior mistério de toda a minha
vida, nem que eu tivesse que viver centenas de anos, tenho certeza de que algo
me escaparia, pois é de seu ser escapar de minhas próprias mãos, por mais que
eu a mantenha forte sob mim, por mais que eu a agarre e a fira entre meus dedos. Nela, sempre
haverá uma força descomunal de mudar a posição, de mudar a palavra, de mudar o
trejeito e, pior, estou indefeso diante disso. Pois, sempre, contei com seres
previsíveis, metodicamente adestrados, enclausurados.
Mas estou com um animal que não é domesticado!!! Estou com
um animal cru, bruto, desconhecido e dócil!!! Um animal que reúne veneno e
cura, dor e alívio, doçura e brutalidade!!
Não é possível!! Como posso mapear sua mente e coração?!
Como posso chegar ao seu coração??!!
Nas horas que mais me aproximei, que finalmente pude por um momento
agarrar o seu coração, sofri um golpe fatal de amor, que me deixou atônito,
porque ela é incrivelmente fugitiva, incrivelmente escapadiça e somente se dá
quando se quer dar, e somente se oferece, quando realmente quer se oferecer.
Como posso viver assim?! Com um animal tão bravio?
Sempre fui pronto para combater animais ferozes.
Sempre fui preparado para acolher a doçura.
Mas, em apenas um único animal, existir tudo de mais
contraditório e complexo, não!
Nunca me ensinaram que em doses severas, ela poderia me
matar.
Nunca me ensinaram que em doses amenas, a sua falta também
me mataria e que sua doçura também me mataria.
E que de qualquer forma, de qualquer jeito, pouco ou muito,
fraco ou forte, devagar ou depressa, ela, somente ela poderia me matar.
Eu não sabia que o feio e o bonito,
Que o santo e profano,
Que o benigno e maligno,
Que o doce e salgado,
E que tudo isso havia apenas numa mulher, que era deus e o
diabo.
Li, reli, estudei. Ainda não sei os seus segredos.
Quando penso que estou bem próximo, bem próximo, quase que a
pegá-la pela mão e descobrí-la, desmascará-la, ela me golpeia com um dado surpresa.
CHEIA DE SURPRESAS!!
Sempre feita de lacunas, e eu continuo escravizado pelas faltas que não consigo compreender, porque é esse controle que não tenho sobre
ela, é isso que me faz escravo dela.
Eu não sei o que há, mas eu sei que ela é o único veneno o
qual sempre quero tomar.
_ Eliane Vale.

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