sexta-feira, 25 de março de 2016

O mundo que não vemos quando não estamos ali.



Eu sempre tive curiosidade de saber como as coisas funcionam quando não estou nos lugares.
Eu tinha o desejo de saber como tudo funciona quando não existo, quando não estou naquele plano, naquela esfera. Não falo de uma forma atrelada à conversa de bastidores que ocorrem ou possam ocorrer quando qualquer um de nós estamos distantes. Falo de outra coisa. Falo de tudo que engloba o que somos e como impactamos ambientes e pessoas, e também, de como somos ausência ou nada quando não exercemos influência alguma.

Mas, enganei-me muito, ou nos enganamos deveras quando consideramos que até nossa ausência não é nada. O nada também impacta sobre o que existe. O nada é uma força, que seja uma força de retração ou negativa, mas é uma força. Ao que me parece, nesse mundo, não há como vivermos sem causar impacto algum. Sempre o que dizemos, o que fazemos causa repercussão, consequência e, até nosso silêncio, também é ação.

Quando eu saí daquele apartamento, resolvi experimentar isso. Resolvi ir onde eu não existia.
Eu não estava em diversos lugares...  Em diversos lugares, pois, eu olhava para mim, e eu estava ali, eu somente conseguia detectar onde eu estava, porém, naquele dia, naquela noite, eu precisava eleger apenas um lugar para ir. Eu queria saber como as coisas funcionam sem mim, como as pessoas são sem mim. O grande problema, a grande incoerência disso, desse meu desejo inusitado é que na hora em que eu intentasse ir onde eu anteriormente não estava, o meu objetivo inicial fracassaria: Ora! Eu acabaria de me fazer presente, logo, alteraria toda a ordem do ambiente.
Nesse ponto, notei uma coisa muito estranha... A minha ausência era a coisa mais presente nas pessoas, nas coisas, nos ambientes de todo o mundo, e a minha ausência era inalcançável. Era A MINHA AUSÊNCIA QUE MAIS EXISTIA.

Eu tinha brigado com Deus naquela noite. Eu já briguei com Deus muitas vezes. Mas, continuamos com o nosso embate eterno: ELE me ama e eu nunca termino minha conversa com ele, pois sempre alongo de forma proposital. É que preciso DESESPERADAMENTE DELE a todo tempo, a todo momento e para sempre, apesar de todo meu orgulho, é sem sentido eu esconder isso Dele, que dirá de vocês?

Continuemos. Saí, e em todos os lugares que intentei saber como minha ausência se fazia presente nos ambientes, percebi que fracassaria, haja vista que ao chegar, eu não mais perceberia minha ausência, pelo motivo óbvio de estar lá. Não é que me veriam. Não é isso.
É que me sentiriam. E sentir, SENTIR vale muito mais, muito mais do que qualquer coisa, QUALQUER COISA.

Depois, tive uma ideia: que tal ir a um lugar que nunca fui? Se assim, eu fosse, perceberia inicialmente minha ausência ou presença impactando aos poucos.
Essas coisas passavam pela minha cabeça ao mesmo tempo em que eu mesma me corrigia:
´´o problema é que eu estava querendo ser Deus...``

Eu viajei. Desci as escadas do mundo, e encontrei Deus numa esquina. Ele me olhou com desdém. Não me perguntou nada nem para onde eu ia ou se iria me encontrar com alguém. NÃO ME PERGUNTOU NADA! Deus havia me deixado livre, ao menos, daquela vez.
Eu não posso contar o que vi. É que Deus não permite isso.
Mas, eu posso dizer que fracassei. Nunca deveria ter saído da varanda.

Eu amei o mundo. Amei tudo que nele havia e como ele se apresentava para mim. O mundo era vasto, sombrio, iluminado e eloquente. Deu-me tudo que ele poderia e eu, em contrapartida, dei-lhe da mesma forma, tudo que havia em mim. O mundo morava na minha varanda. Vez ou outra, eu olhava para ele.

Quando desci as escadas e virei a esquina, encontrei um senhor de barba branca aparentando seus cinquenta anos, e ele me perguntava se eu havia esquecido o manual, O MANUAL!
Claro! Eu havia esquecido o manual! Como eu poderia ter esquecido? Voltei, subi as escadas correndo, porém, para minha frustração, Deus me segurou pelo braço.
_ Que foi? Solte-me!
_ Retorne. Nada de manuais, mocinha!


Eu odiava   nadar à deriva! O-DI-A-VA! Odiava não saber!!! Odiava não ter certeza!! Minha vida sempre é pautada sob certezas. Difícil isso? É, é bem difícil mesmo de acreditar, mas não fico à deriva, ISSO, NÃO! JAMAIS! Mesmo assim, obedeci à contragosto. Não peguei o manual. Daquela vez, daquela única vez, eu ia dar uma chance ao mestre do mundo. Eu não iria usar o manual somente porque tinha sido Ele que havia me pedido. Daquela vez, eu tinha deixado tudo nas mãos de DEUS, e eu sabia que estava nas melhores mãos.


_ Eliane Vale

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