É impressionante o quanto passamos a vida inteira repetindo frases, palavras sem sentido algum. Coisas que não possuem nexo, mas que soam igualmente a axiomas, quase. Sentei-me para o ato da escrita, peguei uma taça de vinho, geralmente a que me acompanha às Sextas-Feiras, e estava disposta a escrever sobre o quanto somos capazes de ser feliz em pequenas coisas, com poucas coisas.
De súbito, um sentimento questionador me invadiu, e antes de eu refutar uma verdade que me escravizava há muito tempo, pesquisei em alguns dicionários o significado para três palavras. Abaixo, deixo-as para análise:
Pouco: em pequena quantidade;
Pequeno: que é feito em limitada escala;
Felicidade: êxtase, intensa alegria.
Depois dessa rápida pesquisa, o que percebi foi uma incongruência milenar. Não, eu não era feliz em pequenas coisas; eu não ficava feliz com pequenas coisas. As coisas que me deixavam feliz não eram nem pequenas, nem poucas. Elas eram tão completas, tão integrais, tão intensas e extensas dentro de mim que jamais poderiam ser consideras de pouca quantidade. Essa era a incongruência a que me referia. Repito: não havia pequenez, não havia apoucamento em tudo que me fazia feliz ou que me faz feliz.
Mas, não posso negar, e era esta a divergência que havia entre eu e o mundo, que o que me fazia feliz, intensamente transbordada eram situações simples.
O que me fazia feliz, intensamente feliz era compartilhar qualquer sentimento, qualquer situação que me arrancasse um choro de emoção, uma alegria inesperada, um estado espiritual de puro agradecimento pela vida e por estar viva, também a paz interior. Não havia nisso nada de limitado, escasso. Tudo era dado em esborrotamento. Tudo derramava-se!
Reparem que a felicidade não é tímida, não pode ser tímida. A felicidade, um sentimento de intensa alegria, não pode caber em uma coisa menos do que ela. Prestem bem atenção: o mundo é feito sob leis universais perfeitas e, entre elas, não existem vazões do que é grande pelo o que é pequeno. Já lhes disse: o maior não cabe no menor, não cabe! Para brotar o que é grandioso, originalmente o fruto também virá de algo grandioso, pode ser simples, na maioria das vezes é simples, porém não é pequeno, reles. E simples, meus caros amigos, quer dizer apenas que não é preciso que seja muito engendrado, complexo, exclusivo. Percebam que não existe uma relação do que é simples com o que é reles, baixo ou desprezível. A definição do que se é simples é apenas dizer o que é natural, comum e potencialmente encontrável nas mais variadas situações. Vejam que o valor do simples é justamente o fato de ele ser possível a todos nós, a qualquer momento.
Diante disso, percebi que era impossível eu ser feliz em pequenas coisas. Sou indisposta a coisas pequenas e poucas, mas as simples, as inocentes, as singelas, as comuns são as que me comprazem.

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